João
Francisco Lisboa analisa em seu livro "Apontamentos
para a História do Maranhão", de
1852, os acontecimentos gerados pelo descontentamento
criado pela introdução do estanco -
comércio de produtos monopolizados pelo Estado
- que tiveram sua culminância na Revolução
do Maranhão de 1684, episódio
conhecido como a "Revolução de
Beckman".
O
objetivo deste trabalho é analisar algumas
das significações que Lisboa emprestou
a "povo", "moradores", "cidadãos",
"plebe" e "turba": a relação
entre "povo" e "herói"
e seus conceitos de "ordem" e "desordem".
Povo
é o elemento passivo, apesar de agente da desordem,
porque é nele que agem as forças coletivas,
não pode controlar as ações,
ao contrário, é levado por elas, tornando-se,
então, a força incontrolável
que irrompe em excessos e conduz à desordem.
O
sujeito da ação dos eventos narrados
é Manuel Beckman, personagem que agrega os
valores capazes de lhe conferir a condição
de um herói. Mesmo assim, com o desenrolar
dos acontecimentos, ele também passará
a ser afetado pelas forras coletivas.
Mas
vejamos como Lisboa se vale do uso do termo "povo",
contraposto ao de "moradores", até
o momento em que os acontecimentos revolucionários
explodem na cidade.
Os
"moradores" são a elite da cidade
enquanto a ordem é mantida e estão claramente
separados do "povo. Contudo, a partir do momento
em que a opressão a que esses proprietários
estão sendo submetidos a partir da introdução
do estanco se explicita, esta elite transforma-se,
na narrativa de Lisboa, em "Povo". É
explícita a identificação do
"povo" com uma situação de
opressão. Este é o momento em que se
alternam as designação de "moradores"
e "Povo". Entretanto, este "Povo",
constituído pela elite, jamais será
igual ao "povo", formado pela plebe.
Existe,
porém, um termo intermediário nesta
transição de "moradores" para
"Povo" "cidadão", que surge
para designar os moradores uma vez que assumam parte
ativa em uma situação política;
termo que só permanece enquanto não
surgem nenhum tipo de ação identificada
com uma subversão da ordem. Isso significa
dizer que permanecem cidadãos enquanto se mantêm
no âmbito da reflexão , passando a tornar-se"Povo"
se partem para a ação propriamente dita.
Esta
idéia nos permite uma aproximação
com as observações de Michelet no livro
"O Povo", de l846. Interessante porque,
ambos se consideram liberais e poucos anos separam
as duas obras. Podemos usar, portanto, algumas chaves
presentes em Michelet para interpretar Lisboa.
Em
ambos os escritores está presente a idéia
de que o povo é arrastado por grandes forças
coletivas; bem como, a distinção que
fazem entre "homens de reflexão",
binômio de onde emergirá afigura do herói,
ou para usar a denominação de Michelet,
do gênio individual.
Apesar
do povo ser "arrastado pelas grandes forças
coletivas", o que Michelet considera mais interessante
no povo é a sua capacidade de ação,
por esta razão, segundo ele, o maior erro que
as pessoas do povo podem cometer é abandonar
os "seus instintos" e lançar-se em
busca das "abstrações e generalidades",
que, inversamente, caracterizam os homens das altas
sociedades, que os fazem ser, "homens de reflexão".